Cest n’est pas un poème
Maquinaria de Letras tem como assunto a literatura e suas afinidades.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
domingo, 19 de dezembro de 2010
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Um artista da fome, de Kafka.
KAFKA, Franz. Um artista da fome. In: Um artista da fome e A construção.
Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pp. 23 – 36.
UM ARTISTA DA FOME
"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome; a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida do relógio – tão importante para ele e a única peça que decorava a jaula – , mas fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.
Além dos espectadores que se revezavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público – em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranqüilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra de sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes; eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas como era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir sobre o jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. A luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com esses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles – tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais, e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas (...)"
Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pp. 23 – 36.
UM ARTISTA DA FOME
"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome; a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida do relógio – tão importante para ele e a única peça que decorava a jaula – , mas fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.
Além dos espectadores que se revezavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público – em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranqüilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra de sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes; eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas como era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir sobre o jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. A luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com esses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles – tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais, e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas (...)"
Último trecho de "Uma mulher pequena", de Kafka.
"... Continuarei saindo de casa na felicidade das primeiras horas da manhã ‘para ver esse rosto azedo por minha causa, os lábios franzidos rabugentamente, o olhar inquisidor que já conhece o resultado antes do exame e que, ao me esquadrinhar, não deixa escapar nada, mesmo na maior fugacidade, o sorriso amargo encravado nas maçãs juvenis, o olhar de lástima que se eleva ao céu, as mãos que se plantam nos quadris para adquirir firmeza e depois o empalidecimento e o tremor da indignação.
Não faz muito tempo – e pela primeira vez, como nessa ocasião admiti espantado para mim mesmo – mencionei o assunto a um bom amigo, só de passagem, bem de leve, através de algumas palavras, rebaixando o significado de tudo – pois no fundo a questão para mim é pequena vista de fora – a um nível um pouco inferior à verdade. Curiosamente, entretanto, o amigo não deixou de ouvir – até mesmo deu, por conta própria, mais sentido ao caso, não permitiu que se fugisse do assunto e insistiu nele. Mais curioso ainda foi que, a despeito disso, subestimou a coisa num ponto decisivo, pois me aconselhou seriamente a viajar por algum tempo. Nenhum conselho poderia ser mais incompreensível; de fato as coisas são simples, qualquer um pode atravessá-las com o olhar se chegar mais perto, mas elas não são tão simples ao ponto de minha partida conseguir pôr tudo (ou pelo menos o mais importante) em ordem. Pelo contrário, devo antes me prevenir contra essa viagem; se é que não incluem o mundo externo, isto é: permanecer quieto no lugar onde estou e não permitir que grandes alterações provocadas por esta questão chamem atenção, o que também implica não falar com ninguém sobre isso – não porque seja um segredo perigoso, mas porque é um assunto pequeno, puramente pessoal, por isso mesmo fácil de levar e que assim deve se manter. Nesse sentido as observações do meu amigo não foram completamente inúteis; não me ensinaram nada de novo, mas fortaleceram minha opinião básica.
Como mostram reflexões mais precisas, as mudanças que a questão parece ter sofrido no correr do tempo não são alterações do assunto em si, mas apenas um avanço na visão que tenho dele, na medida em que essa visão se torna, em parte, mais serena, mais máscula, mais próxima do cerne e, em parte também, adquire um certo nervosismo sob a influência insuperável dos abalos contínuos, por mais leves que estes sejam.
Fico mais calmo diante da coisa quando creio reconhecer que uma decisão, por mais próxima que pareça estar, não virá; as pessoas inclinam-se facilmente, sobretudo nos anos de juventude, a superestimar muito a velocidade com que as decisões aparecem; se minha pequena juíza, debilitada por minha presença, afundava de lado numa poltrona, agarrava com uma das mãos o espaldar e com a outra desapertava o espartilho e as lágrimas de cólera e desespero rolavam pelas suas faces, eu sempre achava que essa era a hora da decisão e que seria imediatamente intimado a dar explicações. Mas nada de decisão, nada de explicações, as mulheres se sentem mal com facilidade, o mundo não tem tempo para prestar atenção em todos os casos. E o que na verdade aconteceu todos esses anos? Nada a não ser que esses casos se repetiram, ora mais fracos, ora mais fortes, e que sua soma total agora é maior. E que as pessoas circulam em torno e gostariam de intervir se achassem uma possibilidade para isso; mas não acham nenhuma, até agora confiam apenas no seu faro e o faro na verdade só basta para entreter fartamente o proprietário, não serve para outra coisa. No fundo porém sempre foi assim, sempre houve consumidores de ar, que sempre desculparam sua proximidade de um modo superastuto – de preferência através do parentesco; sempre tiveram o nariz cheio de faro, mas o resultado disso tudo é que apenas continuam aí. A grande diferença é que aos poucos eu os fui conhecendo e distinguindo suas caras; antes eu acreditava que viessem de todos os lados, sucessivamente, que as dimensões do caso aumentavam e forçariam por si mesmas a decisão; hoje julgo saber que estavam todos ali desde sempre e que nada ou muito pouco têm a ver com a chegada da decisão. Mas a decisão propriamente dita – por que a nomeio com uma palavra tão forte? Se um dia – decerto não amanhã, nem depois de amanhã, provavelmente nunca – acontecer que o público se ocupe da questão (para a qual, como sempre repetirei, ele é incompetente), não sairei ileso do processo, mas sem dúvida será levado em conta o fato de que não sou um desconhecido, que vivo à luz publica desde sempre, confiante e digno de confiança e que, por isso, essa mulherzinha doente, recém-aportada à minha vida, a quem, diga-se de passagem, um outro que não eu talvez tivesse há muito identificado como um carrapicho e esmagado debaixo da bota, sem fazer ruído para ninguém – que esta mulher, no pior dos casos, só poderia acrescentar um pequeno e desagradável garrancho ao diploma no qual o público há bastante tempo me declara um respeitável membro seu. Este é o estado atual das coisas – pouco tendente, portanto, a me intranqüilizar.
Não tem nada a ver com o sentido real da coisa o fato de que com os anos eu me tornei um pouco inquieto; é que simplesmente ninguém suporta irritar quem qur que seja de modo contínuo, mesmo que se reconheça a falta de fundamento da irritação; fica-se intranqüilo, começa-se a espreitar decisões – de certa maneira só no muito que elas estejam vindo. Mas em parte trata-se apenas de um sintoma da idade; a juventude veste tudo com belas roupagens; pormenores desagradáveis se perdem no jorro enérgico da juventude; mesmo que alguém, quando jovem, tenha tido um olhar um tanto à espreita, isso não é levado a mal, não é notado nem por ele próprio; mas o que sobra na velhice são resíduos e cada um deles é necessário, nenhum é renovado, todos ficam sob observação – e o olhar de espreita num homem de idade está claramente à espreita, não é difícil percebê-lo. Mas também aqui não se trata de uma piora real e efetiva.
Portanto, de onde quer que observe este pequeno caso, evidencia-se sempre – e nisso me apego – que, se eu o mantiver tapado com a mão, mesmo que seja bem de leve, poderei prosseguir ainda por muito tempo, calmamente, sem ser importunado pelo mundo, na vida que tenho levado até agora – a despeito de toda a fúria dessa mulher."
Fim.
Não faz muito tempo – e pela primeira vez, como nessa ocasião admiti espantado para mim mesmo – mencionei o assunto a um bom amigo, só de passagem, bem de leve, através de algumas palavras, rebaixando o significado de tudo – pois no fundo a questão para mim é pequena vista de fora – a um nível um pouco inferior à verdade. Curiosamente, entretanto, o amigo não deixou de ouvir – até mesmo deu, por conta própria, mais sentido ao caso, não permitiu que se fugisse do assunto e insistiu nele. Mais curioso ainda foi que, a despeito disso, subestimou a coisa num ponto decisivo, pois me aconselhou seriamente a viajar por algum tempo. Nenhum conselho poderia ser mais incompreensível; de fato as coisas são simples, qualquer um pode atravessá-las com o olhar se chegar mais perto, mas elas não são tão simples ao ponto de minha partida conseguir pôr tudo (ou pelo menos o mais importante) em ordem. Pelo contrário, devo antes me prevenir contra essa viagem; se é que não incluem o mundo externo, isto é: permanecer quieto no lugar onde estou e não permitir que grandes alterações provocadas por esta questão chamem atenção, o que também implica não falar com ninguém sobre isso – não porque seja um segredo perigoso, mas porque é um assunto pequeno, puramente pessoal, por isso mesmo fácil de levar e que assim deve se manter. Nesse sentido as observações do meu amigo não foram completamente inúteis; não me ensinaram nada de novo, mas fortaleceram minha opinião básica.
Como mostram reflexões mais precisas, as mudanças que a questão parece ter sofrido no correr do tempo não são alterações do assunto em si, mas apenas um avanço na visão que tenho dele, na medida em que essa visão se torna, em parte, mais serena, mais máscula, mais próxima do cerne e, em parte também, adquire um certo nervosismo sob a influência insuperável dos abalos contínuos, por mais leves que estes sejam.
Fico mais calmo diante da coisa quando creio reconhecer que uma decisão, por mais próxima que pareça estar, não virá; as pessoas inclinam-se facilmente, sobretudo nos anos de juventude, a superestimar muito a velocidade com que as decisões aparecem; se minha pequena juíza, debilitada por minha presença, afundava de lado numa poltrona, agarrava com uma das mãos o espaldar e com a outra desapertava o espartilho e as lágrimas de cólera e desespero rolavam pelas suas faces, eu sempre achava que essa era a hora da decisão e que seria imediatamente intimado a dar explicações. Mas nada de decisão, nada de explicações, as mulheres se sentem mal com facilidade, o mundo não tem tempo para prestar atenção em todos os casos. E o que na verdade aconteceu todos esses anos? Nada a não ser que esses casos se repetiram, ora mais fracos, ora mais fortes, e que sua soma total agora é maior. E que as pessoas circulam em torno e gostariam de intervir se achassem uma possibilidade para isso; mas não acham nenhuma, até agora confiam apenas no seu faro e o faro na verdade só basta para entreter fartamente o proprietário, não serve para outra coisa. No fundo porém sempre foi assim, sempre houve consumidores de ar, que sempre desculparam sua proximidade de um modo superastuto – de preferência através do parentesco; sempre tiveram o nariz cheio de faro, mas o resultado disso tudo é que apenas continuam aí. A grande diferença é que aos poucos eu os fui conhecendo e distinguindo suas caras; antes eu acreditava que viessem de todos os lados, sucessivamente, que as dimensões do caso aumentavam e forçariam por si mesmas a decisão; hoje julgo saber que estavam todos ali desde sempre e que nada ou muito pouco têm a ver com a chegada da decisão. Mas a decisão propriamente dita – por que a nomeio com uma palavra tão forte? Se um dia – decerto não amanhã, nem depois de amanhã, provavelmente nunca – acontecer que o público se ocupe da questão (para a qual, como sempre repetirei, ele é incompetente), não sairei ileso do processo, mas sem dúvida será levado em conta o fato de que não sou um desconhecido, que vivo à luz publica desde sempre, confiante e digno de confiança e que, por isso, essa mulherzinha doente, recém-aportada à minha vida, a quem, diga-se de passagem, um outro que não eu talvez tivesse há muito identificado como um carrapicho e esmagado debaixo da bota, sem fazer ruído para ninguém – que esta mulher, no pior dos casos, só poderia acrescentar um pequeno e desagradável garrancho ao diploma no qual o público há bastante tempo me declara um respeitável membro seu. Este é o estado atual das coisas – pouco tendente, portanto, a me intranqüilizar.
Não tem nada a ver com o sentido real da coisa o fato de que com os anos eu me tornei um pouco inquieto; é que simplesmente ninguém suporta irritar quem qur que seja de modo contínuo, mesmo que se reconheça a falta de fundamento da irritação; fica-se intranqüilo, começa-se a espreitar decisões – de certa maneira só no muito que elas estejam vindo. Mas em parte trata-se apenas de um sintoma da idade; a juventude veste tudo com belas roupagens; pormenores desagradáveis se perdem no jorro enérgico da juventude; mesmo que alguém, quando jovem, tenha tido um olhar um tanto à espreita, isso não é levado a mal, não é notado nem por ele próprio; mas o que sobra na velhice são resíduos e cada um deles é necessário, nenhum é renovado, todos ficam sob observação – e o olhar de espreita num homem de idade está claramente à espreita, não é difícil percebê-lo. Mas também aqui não se trata de uma piora real e efetiva.
Portanto, de onde quer que observe este pequeno caso, evidencia-se sempre – e nisso me apego – que, se eu o mantiver tapado com a mão, mesmo que seja bem de leve, poderei prosseguir ainda por muito tempo, calmamente, sem ser importunado pelo mundo, na vida que tenho levado até agora – a despeito de toda a fúria dessa mulher."
Fim.
terça-feira, 10 de junho de 2008
...Continuação... de Uma Mullher Pequena, de Kafka
"... Não, de modo algum; pois se realmente ficar conhecido que eu a deixo doente com o meu comportamento, e alguns observadores atentos – justamente aqueles que trazem as notícias com maior zelo – já estão a ponto de perceber isso ou pelo menos se apresentam como se o percebessem, e as pessoas vêm e me perguntam por que eu atormento a pobre mulherzinha com a minha incorrigibilidade; se porventura pretendo levá-la à morte e quando, afinal, vou ter o bom senso e a simples compaixão humana para acabar com isso – se o mundo me interpelar dessa maneira, vai ser difícil responder. Devo então admitir que não acredito muito naqueles sintomas e com isso suscitar a desagradável impressão de que, para me livrar de uma culpa, eu culpo outros de modo tão deselegante? E poderia por acaso dizer, com total franqueza, que, mesmo acreditando numa enfermidade real, não teria a menor compaixão, uma vez que a mulher me é completamente estranha e que a relação entre nós só foi estabelecida por ela e existe apenas do lado dela? Não quero dizer que não acreditassem em mim; na realidade não acreditariam nem deixariam de acreditar; ninguém chegaria ao ponto de discutir sobre isso: simplesmente registrariam a resposta que dei a respeito de uma mulher fraca e doente, o que seria pouco vantajoso para mim. Aqui como em qualquer outra resposta cruzaria teimosamente o meu caminho a incapacidade do mundo para impedir que emergisse, num caso como este, a suspeita de uma ligação amorosa, embora seja nítido ao extremo que uma relação como essa não existe e que, caso existisse, ela partiria antes de mim; pois ainda assim eu seria capaz de admirar de fato a pequena mulher pela prontidão do seu julgamento e pelo caráter infatigável das suas conclusões – mesmo que não fosse constantemente punido por essas qualidades. De qualquer modo nela não está presente nenhum vestígio de uma relação amigável comigo; nisso ela é honesta e verdadeira; nisso repousa minha última esperança: nem que se ajustasse ao seu plano bélico fazer crer numa tal ligação comigo ela chegaria ao ponto de se esquecer de si mesma e fazer coisa semelhante. Mas o público, inteiramente obtuso nesse aspecto, sustentaria a sua opinião e decidiria sempre contra mim.
Assim, na verdade não me restaria outra coisa senão mudar em tempo, antes que o mundo interviesse – mudar o suficiente não para eliminar a irritação da mulherzinha, o que é impensável, mas para abrandá-la um pouco. De fato já me perguntei muitas vezes se meu estado atual me satisfaz a ponto de não querer de modo nenhum modificá-lo, e se não seria possível proceder a certas mudanças em mim – mesmo que não o fizesse por estar convencido da sua necessidade, mas só para aplacar a mulher. E eu o tentei honestamente, não sem esforço e esmero – isso correspondia a um impulso interior meu e quase me divertiu; resultaram mudanças isoladas, amplamente visíveis, não precisei chamar a atenção da mulher para elas, ela percebe essas coisas mais cedo que eu, nota logo a expressão da intenção no meu ser; mas nenhum êxito me foi concedido. E como isso seria possível? A insatisfação dela comigo, como agora eu entendo, é uma questão de princípio; nada pode suplantá-la, nem mesmo a supressão da minha pessoa; a notícia do meu suicídio, por exemplo, provocaria nela acessos de fúria sem limites. Ora, não posso imaginar que uma mulher tão aguda não enxergue tão bem como eu tanto a falta de perspectiva dos seus esforços quanto a minha inocência e a minha incapacidade para corresponder, mesmo com a melhor das vontades, às suas exigências. Seguramente ela compreende isso, mas, sendo uma natureza combativa, esquece-o na paixão da luta, e meu infeliz modo de ser – que não posso evitar, pois nasci com ele – consiste em sussurrar uma mansa exortação a quem está fora de juízo. Naturalmente dessa maneira nunca iremos chegar a um acordo..."
Assim, na verdade não me restaria outra coisa senão mudar em tempo, antes que o mundo interviesse – mudar o suficiente não para eliminar a irritação da mulherzinha, o que é impensável, mas para abrandá-la um pouco. De fato já me perguntei muitas vezes se meu estado atual me satisfaz a ponto de não querer de modo nenhum modificá-lo, e se não seria possível proceder a certas mudanças em mim – mesmo que não o fizesse por estar convencido da sua necessidade, mas só para aplacar a mulher. E eu o tentei honestamente, não sem esforço e esmero – isso correspondia a um impulso interior meu e quase me divertiu; resultaram mudanças isoladas, amplamente visíveis, não precisei chamar a atenção da mulher para elas, ela percebe essas coisas mais cedo que eu, nota logo a expressão da intenção no meu ser; mas nenhum êxito me foi concedido. E como isso seria possível? A insatisfação dela comigo, como agora eu entendo, é uma questão de princípio; nada pode suplantá-la, nem mesmo a supressão da minha pessoa; a notícia do meu suicídio, por exemplo, provocaria nela acessos de fúria sem limites. Ora, não posso imaginar que uma mulher tão aguda não enxergue tão bem como eu tanto a falta de perspectiva dos seus esforços quanto a minha inocência e a minha incapacidade para corresponder, mesmo com a melhor das vontades, às suas exigências. Seguramente ela compreende isso, mas, sendo uma natureza combativa, esquece-o na paixão da luta, e meu infeliz modo de ser – que não posso evitar, pois nasci com ele – consiste em sussurrar uma mansa exortação a quem está fora de juízo. Naturalmente dessa maneira nunca iremos chegar a um acordo..."
domingo, 8 de junho de 2008
Uma mulher pequena, de Kafka ... continuação...
... Existe também, se se quiser, uma certa responsabilidade minha, pois por mais alheia a mim que a mulherzinha seja, e por mais que a única relação que existe entre nós seja o desgosto que lhe causo – ou que ela faz com que eu provoque nela –, não me deveria ser indiferente o quanto, de modo visível, ela sofre até fisicamente com essa irritação. De vez em quando chegam-me notícias – que nos últimos tempos aumentaram – de que ela esteve outra vez pálida e tresnoitada pela manhã, torturada por dores de cabeça e quase incapaz de trabalhar; com isso atribula os seus familiares, volta e meia indaga-se sobre as causas do seu estado e até agora elas não foram encontradas. Só eu as conheço – é aquele antigo e sempre renovado aborrecimento comigo. Certamente não compartilho as preocupações dos seus familiares; ela é forte e tenaz; quem consegue irritar-se assim provavelmente pode superar também as seqüelas da irritação; suspeito até que ela – pelo menos em parte – só se põe doente para, desse modo, dirigir a suspeita do mundo contra mim. É orgulhosa demais para dizer abertamente como eu a mortifico com a minha existência; sentiria como uma degradação de si mesma apelar para os outros por minha causa; só se ocupa de mim por aversão – uma aversão que não cessa e que a instiga continuamente; comentar publicamente essa coisa impura seria demais para o seu pudor. Mas silenciar por completo uma questão que a oprime sem parar também é demais. Assim procura, na sua astúcia de mulher, um meio-termo; em silêncio, só pelos sinais exteriores de uma dor secreta, quer levar o assunto ao tribunal público. Talvez alimente até mesmo a esperança de que, quando o público me dirigir um olhar pleno, irá surgir um desgosto geral contra mim e ele me condenará, com os seus grandes meios de poder, de uma forma definitiva – mais forte e rápido do que é capaz sua irritação privada, relativamente mais fraca; então ela se retiraria, respiraria aliviada e me voltaria as costas. Pois bem, se suas esperanças forem realmente estas, ela se engana. A opinião pública não assumirá o papel dela, jamais terá coisas tão infinitas a censurar em mim, mesmo que me coloque sob sua mais forte lente de aumento. Não sou uma pessoa tão inútil quanto ela acredita; não quero vangloriar-me, principalmente neste contexto; mas mesmo que eu não possa me destacar por uma utilidade especial, certamente não vou chamar a atenção pelo contrário; só para ela, para os seus olhos que quase irradiam chispas brancas, eu sou assim – e disso ela não poderá convencer mais ninguém. Poderia, pois, sentir-me completamente tranqüilo a esse respeito? (...)"
terça-feira, 27 de maio de 2008
UMA MULHER PEQUENA, de Franz Kafka
KAFKA, Franz. Uma mulher pequena. In: Um artista da fome e A construção. Tradução:
Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pp. 13 – 22.
Uma mulher pequena
É uma mulher pequena; embora esbelta por natureza, anda muito espartilhada; vejo-a sempre com o mesmo vestido, de um tecido cinza amarelado meio cor de madeira e guarnecido de borlas ou pingentes em forma de botões do mesmo tom; está sempre sem chapéu, seu cabelo loiro desbotado é liso e mantém-se muito fofo, mas não desordenado. Apesar do espartilho seus movimentos são ágeis, naturalmente ela exagera essa mobilidade, gosta de conservar as mãos nos quadris e vira a parte superior do corpo para o lado com um arremesso surpreendentemente rápido. Só posso reproduzir a impressão que sua mão me causa se disser que nunca vi nenhuma em que os dedos estivessem tão nitidamente separados uns dos outros; mas a mão dela não tem nenhuma peculiaridade anatômica, é completamente normal.
Ora, essa mulherzinha está muito insatisfeita comigo, sempre tem algo a censurar em mim, diante dela estou sempre errado e irrito-a a cada passo; se fosse possível dividir a vida em partes mínimas e cada partícula pudesse ser julgada em separado, certamente qualquer pedacinho da minha vida seria um aborrecimento para ela. Já me perguntei várias vezes por que a exaspero tanto; pode ser que tudo em mim contrarie o seu sentido de beleza, o seu sentimento de justiça, os seus hábitos, as suas tradições, as suas esperanças; existem naturezas que se contradizem desse modo, mas por que ela sofre tanto com isso? Não há nenhuma relação entre nós que pudesse forçá-la a sofrer por minha causa. Ela só teria que se decidir a me ver como alguém completamente estranho, o que aliás sou: não me oporia a essa decisão, mas a receberia muito bem; ela teria apenas que se decidir a esquecer da minha existência, que eu por sinal nunca impus ou imporia a ela – e todo o sofrimento sem dúvida acabaria. Faço aqui inteira abstração de mim mesmo e do fato de que seu comportamento evidentemente também me é penoso; ponho isso de lado porque reconheço que todo esse padecimento não é nada em comparação com a sua dor. No entanto estou bem consciente de que não se trata de um sofrimento amoroso da sua parte; ela não tem o menor empenho em promover qualquer aprimoramento meu, tanto mais que tudo o que reprova em mim não é de natureza capaz de perturbar o meu progresso. Mas a minha evolução também não a preocupa; ela não se preocupa com outra coisa que não seja o seu interesse pessoal, isto é: vingar-se do tormento que provoco nela e impedir o tormento que, vindo de mim, a ameaça no futuro. Já tentei uma vez apontar-lhe o melhor caminho para pôr um fim a esse dissabor permanente, mas com isso levei-a a uma comoção tamanha que não repetirei mais a tentativa (...)
Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pp. 13 – 22.
Uma mulher pequena
É uma mulher pequena; embora esbelta por natureza, anda muito espartilhada; vejo-a sempre com o mesmo vestido, de um tecido cinza amarelado meio cor de madeira e guarnecido de borlas ou pingentes em forma de botões do mesmo tom; está sempre sem chapéu, seu cabelo loiro desbotado é liso e mantém-se muito fofo, mas não desordenado. Apesar do espartilho seus movimentos são ágeis, naturalmente ela exagera essa mobilidade, gosta de conservar as mãos nos quadris e vira a parte superior do corpo para o lado com um arremesso surpreendentemente rápido. Só posso reproduzir a impressão que sua mão me causa se disser que nunca vi nenhuma em que os dedos estivessem tão nitidamente separados uns dos outros; mas a mão dela não tem nenhuma peculiaridade anatômica, é completamente normal.
Ora, essa mulherzinha está muito insatisfeita comigo, sempre tem algo a censurar em mim, diante dela estou sempre errado e irrito-a a cada passo; se fosse possível dividir a vida em partes mínimas e cada partícula pudesse ser julgada em separado, certamente qualquer pedacinho da minha vida seria um aborrecimento para ela. Já me perguntei várias vezes por que a exaspero tanto; pode ser que tudo em mim contrarie o seu sentido de beleza, o seu sentimento de justiça, os seus hábitos, as suas tradições, as suas esperanças; existem naturezas que se contradizem desse modo, mas por que ela sofre tanto com isso? Não há nenhuma relação entre nós que pudesse forçá-la a sofrer por minha causa. Ela só teria que se decidir a me ver como alguém completamente estranho, o que aliás sou: não me oporia a essa decisão, mas a receberia muito bem; ela teria apenas que se decidir a esquecer da minha existência, que eu por sinal nunca impus ou imporia a ela – e todo o sofrimento sem dúvida acabaria. Faço aqui inteira abstração de mim mesmo e do fato de que seu comportamento evidentemente também me é penoso; ponho isso de lado porque reconheço que todo esse padecimento não é nada em comparação com a sua dor. No entanto estou bem consciente de que não se trata de um sofrimento amoroso da sua parte; ela não tem o menor empenho em promover qualquer aprimoramento meu, tanto mais que tudo o que reprova em mim não é de natureza capaz de perturbar o meu progresso. Mas a minha evolução também não a preocupa; ela não se preocupa com outra coisa que não seja o seu interesse pessoal, isto é: vingar-se do tormento que provoco nela e impedir o tormento que, vindo de mim, a ameaça no futuro. Já tentei uma vez apontar-lhe o melhor caminho para pôr um fim a esse dissabor permanente, mas com isso levei-a a uma comoção tamanha que não repetirei mais a tentativa (...)
Degustar Kafka
Decidi servir alguns textos da Estética da Fome. O primeiro deles será Uma mulher pequena, de Franz Kafka. Pretendo digitar cada um dos contos para irritar a fome em mim. Já se sabe, então, serão postados em fragmentos, o que me parece, acentuam-lhe o sabor.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
ARGUMENTO, Cecilia Gusmão Wellisch
Entra no meu céu...
... você diz que está no meio.
Venha que é o céu...
... você diz que é o meio.
Meio do meu céu: conjunção.
Céu inteiro, não.
Arco do meu céu:
Spira, esfera, estrela.
Meu céu ornado é chegada,
eixo central, portal.
Ora, todo meio do céu é meio dossel.
Seja altar, luar,
Baldaquim, Baldar,
É pousada no meio do céu,
Já Lá dentro.
... você diz que está no meio.
Venha que é o céu...
... você diz que é o meio.
Meio do meu céu: conjunção.
Céu inteiro, não.
Arco do meu céu:
Spira, esfera, estrela.
Meu céu ornado é chegada,
eixo central, portal.
Ora, todo meio do céu é meio dossel.
Seja altar, luar,
Baldaquim, Baldar,
É pousada no meio do céu,
Já Lá dentro.
Assinar:
Postagens (Atom)
-
KAFKA, Franz. Um artista da fome. In: Um artista da fome e A construção. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. ...